quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Psicanálise e Aprendizagem


Psicanálise e Aprendizagem

Por: Marcia Muller

A Educação é um universo de possibilidades que vai desde a discussão sobre sua essência até a tentativa de definir o que deve se ensinar. Da forma ao conteúdo, existe uma dispersão que necessita de referência, para escapar da imensidão e assim ser viabilizada como saber neste campo.

Nesta busca incansável de suprir a necessidade de ensinar, ou ensinar a ensinar, a educação se assemelha a ciência, criando novas didáticas a cada dia para dar conta do que é impossível.

Cada vez mais, a didática se afasta de ser uma arte e passa a não só se assemelhar a ciência, mas também pertencer a ela.

Conforme o pensamento científico transformou-se em modelo da produção de conhecimento, a educação – buscando os mesmos padrões – transformou-se em metodologia. Cada vez mais, os conteúdos a serem ensinados provêm do domínio do conhecimento científico.

A educação está sempre ensinando o que é científico. Onde está o ensino da ética, da estética, teologia e outros ensinos de humanidades? Quando estes aparecem no currículo, estão sempre vinculados a ciência.

Se buscarmos uma nova concepção de aprendizagem, quebrando o paradigma da ciência moderna e das correntes da psicologia cognitiva, encontramos um olhar para o lugar da invenção. Um ponto subjetivo em meio a regras e determinismos.

Neste sentido, aprender não significa uma simples percepção e conhecimento de um objeto, no qual o sujeito e o objeto já estão pré-definidos. Há um processo neste intermédio que sobre a ótica temporal, faz com que a aprendizagem não se limite ao conhecimento do objeto, mas que haja uma problematização.

A colocação de um problema que faz com que em um processo de devir – podemos dizer devir filosófico – a invenção tenha lugar. Não se trata apenas de solucionar problemas, mas de inventá-los.

Assim entendemos, como em um processo de devir, de invenção - divergindo da ciência determinista – um músico compõe, um escultor esculpi, um pintor pinta, um apreciador absorve a arte e um professor ensina.

Esses momentos de invenção não se encontram nas explicações científicas nem nas ciências psicológicas. Só aparecem como derivações ou habilidades da inteligência.

A psicanálise traz contribuições para esta questão, a partir do ponto em que também se difere de uma ciência que quer apresentar respostas e soluções prontas.

A partir do conceito de inconsciente estruturado como linguagem, também aponta para o lugar da subjetividade, da invenção.

Sob esse prisma, a psicanálise traz reflexões sobre a transmissão e o ensino. Acrescenta que a educação assume a ciência como conteúdo privilegiado para a transmissão do saber e ao fazê-lo, esse discurso passará a condicionar as hipóteses sobre a transmissão do conhecimento.

No entanto, na visão psicanalítica, esse discurso não consegue enunciar totalmente a transmissão, sempre permanecerá uma “sobra” que não se conseguirá teorizar. Esse resto se apresentará como dificuldade de se ensinar tudo a todos. Escapará algo como dedicação e amor que não se ensina didaticamente. Assim, a psicanálise considera que na arte de educar há algo que só pode ser pensado na categoria do impossível.

Esse impossível não está nos moldes da ciência moderna, onde não existem impossibilidades, onde o professor tudo sabe e o aluno aprende com o professor.

A partir dessas duas abordagens – Aprendizagem inventiva e psicanálise – proponho uma reflexão sobre o que é ensinar.

Em ambas as visões teóricas, há um apontamento para o subjetivo (descartado pela ciência) e a introdução da questão do tempo como algo de imprevisível neste processo.

Se a arte de educar é da ordem do impossível e não pode aprisionar-se ao modo científico, como se ensina?

Não irei oferecer respostas, já que estas não existem nem para a ciência que se encarrega de tê-las, mas sim propor reflexões na contramão destas respostas , embarcando nas teorias em que ensinar e aprender são processos inacabáveis.

Marcia Müller - Educadora e Psicanalista

http://meuartigo.brasilescola.com/educacao/psicanalise-aprendizagem-inventiva.htm

O aprendizado consiste em estarmos dispostos a construir e

desconstruir saberes constantemente. Para tanto, precisamos ter interesse

e disposição em fazer perguntas, questionar, mais do que focar em

respostas pré-estabelecidas.

Na soceidade atual, não somos mais educados para criar.

Uma mente inventiva precisa saber se desapegar e lidar com a angústia

das perdas, inclusive de conhecimentos estagnados há tempos.

Os educadores devem se questionar, e estimular os educandos a

questionarem também.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A Depressão na Psicanálise


Para Lacan a depressão é um afeto que aparece no momento em que o sujeito evita sua própria determinação inconsciente, cede de seu desejo, abre mão dele, “não quer saber” daquilo que o determina.
O desejo constitui “a primeira e única riqueza do ser
humano”, de acordo com Stella Jimenez. O ser humano é movido pelo desejar.

Resgatar o desejo ainda é o melhor processo. A psicanálise, mais especialmente o discurso do analista, no qual o analista ocupa o lugar de objeto, causa de desejo, poderia auxiliar o sujeito a fazer esse resgate.

O que desejamos?

Entender, e assumir pagar o preço de sustentar a singularidade de seu desejo, para não adoecer.

O Jovem Adolescente e a Escolha Profissional

O Jovem Adolescente e a Escolha Profissional

Escrito por Kátia B. L. Amorim e Lucian S. Barros | 2011

Entrar no mundo dos adultos – desejado e temido – significa para o adolescente a perda definitiva de sua condição de criança. É o momento crucial na vida do homem e constitui a etapa decisiva de um processo de desprendimento que começou com o nascimento. [...] Neste período flutua entre uma dependência e uma independência extrema, e só a maturidade lhe permitirá, mais tarde, aceitar ser independente dentro de um limite necessário de dependência. (ABERASTURY E KNOBEL. 1981; p. 13)

Começamos este capítulo com este trecho por considerar que ele expressa de forma sintética alguns dos principais fatores que abordaremos a partir de agora. A adolescência é um tema muitas vezes difícil de ser explicitado. Muitas vezes encarada como um período de transição dotado de dilemas e problemáticas, ora visto como uma das melhores fases da vida humana, ela é sem dúvida um período ou um momento muito importante, onde o tornar-se adulto parece algo inevitável.

Aberastury e Knobel (1981) nos relatam que as mudanças psicológicas e corporais que se produzem neste período levam a uma nova relação com os pais e com o mundo. É como se ocorresse um corte com tudo o que até antes foi vivido, sendo o adolescente um estranho em um corpo que não é dele, vivendo um papel que ele não conhece e convivendo com pais que também lhe são estranhos.

Existem inúmeras tentativas de se definir o conceito de adolescência, embora nem todas as sociedades concordem com a existência desse período da vida. Cada cultura possui uma forma distinta de demarcar esse momento da vida, baseando-se em diversos fatores que vão de acordo com suas crenças, estilos de vida, etc. Nas sociedades ocidentais industriais a adolescência como um período efetivo da vida, com características próprias e demarcadas é algo tomada como certo. No Brasil o Estatuto da Criança e do Adolescente define esta fase como característica dos 12 aos 18 anos de idade. Ampliando um pouco mais o conceito de adolescência, aplica-se o termo Juventude para a faixa etária que vai dos 15 aos 29 anos de idade.

A adolescência, por sua vez, pode ser tomada como uma atitude cultural. A Adolescência é uma atitude ou postura do ser humano durante uma fase de seu desenvolvimento, que deve refletir as expectativas da sociedade sobre as características deste grupo. A adolescência, portanto, é um papel social. E esse papel social de adolescente, parece sempre ter sido simultâneo à puberdade.

Para Erikson (1987) a principal tarefa da adolescência é confrontar a crise de identidade versus confusão de identidade, de modo a se tornar um adulto único com um senso de identidade coerente e um papel valorizado na sociedade. Ainda para este autor a identidade forma-se pela resolução de três questões importantes: a escolha de uma ocupação, a adoção de valores nos quais acreditar e segundo os quais viver e o desenvolvimento de uma identidade sexual satisfatória. A fidelidade seria a virtude alcançada com a resolução satisfatória dessa crise – ser fiel aos ideais conquistados.

Contardo Calligaris em seu livro A Adolescência (2000), diz que:

[...] Erikson entende a crise da adolescência como efeito dos nossos tempos. Para ele, a rapidez das mudanças na modernidade torna problemática a transmissão de uma tradição de pais para filhos adolescentes. Estes devem portando se constituir, se inventar, sem referências estáveis. Erikson foi o primeiro a usar o termo "moratória" para falar de adolescência. Também foi um dos raros a perceber que a crise da adolescência se tornava muito difícil de administrar, já que o mesmo tipo de crise começava a assolar os adultos modernos. (p. 78)

Calligaris (2000) nos fala da moratória como um período situado entre a infância e a fase adulta, no qual o adolescente que já adquiriu as características dos mais velhos deve adiar sua entrada e aceitação no mundo dos adultos, em prol de uma melhor preparação. A adolescência seria um tempo de suspensão entre a chegada à maturação dos corpos e a autorização de realizar os valores pregados na sociedade, tais como independência e sucesso.

[...] há um sujeito capaz, instruído e treinado por mil caminhos – pela escola, pelos pais, pela mídia – para adotar os ideais da comunidade. Ele se torna um adolescente quando, apesar de seu corpo e seu espírito estarem prontos para a competição, não é reconhecido como adulto. Aprende que, por volta de mais dez anos, ficará sob tutela dos adultos, preparando-se para o sexo, o amor e o trabalho, sem produzir, ganhar ou amar; ou então produzindo, ganhando e amando, soque marginalmente. (p. 16)

A adolescência pode aqui ser entendida como processo de passagem entre o período das atividades infantis e a plena integração do indivíduo ao grupo produtivo e reprodutor. Para que ocorra esta passagem, o adolescente vivencia um período de crise, onde ocorrem questionamentos e rupturas com os modelos vigentes. A "crise" adolescente é, portanto, a expressão do questionamento da ordem social estabelecida, tornando-se um espaço de reflexão sobre os conflitos da cultura da qual faz parte.

Aberastury e Knobel (1981) nos falam de uma Síndrome Normal da Adolescência. Para esses autores está seria caracterizada por um serie de características típicas da adolescência. A saber:

Sintetizando as características da adolescência, podemos descrever a seguinte sintomatologia que integraria esta síndrome: 1) busca de si mesmo e da identidade; 2) tendência grupal; 3) necessidade de intelectualizar e fantasiar; 4) crises religiosas, que podem ir desde o ateísmo mais intransigente até o misticismo mais fervoroso; 5) deslocalização temporal, onde o pensamento adquire as características do pensamento primário; 6) evolução sexual manifesta, que vai do auto-erotismo até o heterossexualidade genital adulta; 7) atitude social reivindicatória com tendências anti ou associais de diversa intensidade; 8) contradições sucessivas em todas as manifestações da conduta, dominada pela, que constitui a forma de expressão conceitual mais típica deste período da vida; 9) uma separação progressiva dos pais; e 10) constantes flutuações de humor e do estado de ânimo. (p. 129)

Aberastury e Knobel (1981), ressaltam que poder aceitar a anormalidade habitual do adolescente, vista desde o ângulo da personalidade idealmente sadia ou da personalidade normalmente adulta, permitirá uma aproximação mais produtiva a este período da vida. Este estado dito como "doentio" do adolescente pelo adulto seria algo extremamente normal e necessita ser compreendido, para que ambos (adolescente e adulto) possam se tornar mais próximos.

Para Ozzela (2002) a concepção vigente na psicologia sobre adolescência está fortemente ligada a estereótipos e estigmas. Para este autor grande parte das teorias psicológicas principalmente as baseadas em conceitos psicanalíticos vê a adolescência sob a ótica da ideologia vigente, considerando-a como um fator universal e intrínseco à existência humana. Ainda para este autor a adolescência não é um período natural do desenvolvimento, mas é um momento significativo e interpretado pelo homem.

O conceito de adolescência é uma construção social e histórica. A par das intensas transformações biológicas que caracterizam essa fase da vida, e que são universais, participam da construção dessa noção elementos culturais que variam ao longo do tempo, de uma sociedade a outra e, dentro de uma mesma sociedade, de um grupo a outro. As representações sobre as responsabilidades e os direitos que devem ser atribuídos às pessoas nessa faixa etária, assim como o modo como tais direitos devem ser protegidos, compõem o arcabouço cultural através do qual as sociedades constroem sua humanidade. Para Ozzela (2002), é importante perceber que a totalidade social é constitutiva da adolescência, ou seja, sem as condições sociais, a adolescência não existiria ou não seria essa da qual falamos. Ainda para Ozzela (2002):

A adolescência refere-se, assim, a esse período de latência social constituída a partir da sociedade capitalista, gerada por questões de ingresso no mercado de trabalho e extensão do período escolar, da necessidade do preparo técnico e da necessidade de justificar o distanciamento do trabalho de um determinado grupo social. Essas questões sociais e históricas vão constituindo uma fase de afastamento do trabalho e de preparo para a vida adulta. (p. 22)

Podemos perceber que segundo este pensamento a questão da adolescência está muito mais ligada às questões materiais de existência desses jovens em questão. A idéia de características intrínsecas ao estado de adolescência se torna ultrapassada, quando pensamos que são as condições de vida que determinarão as formas de adolescência se expressar e também as formas que será interpretada.

Com estas considerações chegamos a um ponto importante de nossa análise, quando consideraremos a questão da escolha profissional. A escolha profissional é um momento determinante na vida de todo adolescente. A escolha profissional, nos dias de hoje, se deve ao fato da diversidade de opções, que parece confundir ainda mais. O momento da escolha é sempre muito difícil pelas características da própria escolha, o adolescente precisa optar não só pela profissão que terá, mas por quem ele quer ser, qual o estilo de vida que ele quer levar, isto em um momento em que ele não sabe nem quem ele é, ou seja, para complicar ainda mais, já é sabido que este momento é determinado por intensos conflitos de identidade.

Bock (2002) citando Bohoslavsky diz que:

Quando uma pessoa pensa em seu futuro, ela nunca o faz de forma despersonificada. Ao escolher uma forma de se envolver no mundo do trabalho bem como a atividade que vai desenvolver, a pessoa mobiliza imagens que adquiriu durante sua vida. Assim, ao pensar em profissões especificas, o indivíduo esta expressando que "Quer ser como tal pessoa, real ou imaginada, que tem tais e quais possibilidades ou atributos e que supostamente, os possui em virtude de posição ocupacional que exerce. Ao pensar numa profissão, a pessoa mobiliza uma imagem que foi construída a partir de sua vivência por meio de contatos pessoais, de exposição à mídia, de leituras [...] de ouvir dizer (transposição de experiências de outros) [...]. (p. 78 e 79)

Para Bohoslavsky (1998), o processo de constituição da identidade profissional ocorre desde a infância, a partir das inúmeras identificações que o indivíduo irá realizando durante sua história de vida com adultos significativos que desempenham papéis profissionais. Essas identificações vão sendo incorporadas à personalidade tornando-se próprias. Das gratificações ou frustrações com esses profissionais significativos, nas relações atuais e passadas, se constituirá o tipo de relação com o mundo adulto em termos profissionais e a formação do ideal de ego, ou seja, é a partir do que se admira e deseja e do que se rejeita que surgirão as expectativas a respeito de si mesmo e as aspirações do modo de ser que se quer alcançar.

A escolha profissional vai depender – assim como outras escolhas – das influências externas sofridas por estes adolescente no decorrer de sua vida, pela forma que desenvolveu as relações com o mundo e com os outros. Para Bock (2002) "o ser humano desenvolve suas habilidades, personalidade, suas atitudes na relação com o outro e esta relação está mediada pela sociedade". Então se torna impossível pensar qualquer fator da vida do homem desconectado desta mesma sociedade. Ainda segundo Bock (2002):

A escolha profissional resulta de um processo, mas é efetivada em determinado momento, estabelecido socioculturalmente. A ocasião da escolha profissional não acontece em função de um pressuposto amadurecimento biopsicológico do indivíduo, mas é determinada pela cultura educacional / profissional de uma classe social e / ou de uma sociedade. (p. 179)

A necessidade de se pensar a adolescência como fator histórico social, se faz necessária para que as ações de auxílio sejam de fato eficazes. Para Bock, Gonçalves e Furtado (2002):

A Orientação Profissional, quando vê a adolescência como fase natural caracterizada por dúvidas e crises de identidade, terá, com certeza, um tipo de proposta de trabalho; a própria escolha de profissão fica naturalizada. Contudo, quando considera que essa fase é construída historicamente e que suas dificuldades são geradas fundamentalmente pela contradição condição/autorização, terá outro tipo de proposta para esses jovens. Contribuir para que compreendam esse processo e se apropriem de suas determinações, tornando-se mais capazes de interferir no mundo social, deve ser a meta desse trabalho. (p. 171)

Por que segundo Bock (2002):

A melhor escolha profissional é aquela que consegue dar conta (reflexão) do maior número de determinações para, a partir delas, construir esboços de projetos de vida profissional e pessoal. Utiliza-se o termo projeto para firmar a possibilidade de transformação / mudança da pessoa e, por que não, também de a sociedade na qual ela está inserida. (p. 181)

Portanto, um verdadeiro trabalho de orientação profissional/vocacional deve ser centrado no jovem, possibilitando a ele enxergar a sociedade na qual está inserida, o mercado de trabalho atual, e principalmente a se conhecer, saber quais são as suas habilidades, o que gosta e o que não gosta com o que se identifica o que pensa sobre o futuro, enfim, levá-lo ao ponto de amadurecer suas idéias, a fim de superar suas expectativas vindouras.

Referências:

ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Maurício. Adolescência normal: um enfoque psicanalítico. 7. ed. Porto alegre: Artes Médicas, 1998. 92 p.

BOCK, Ana Mercês Bahia; GONÇALVES, M. Graça M; FURTADO, Odair. Psicologia sócio-histórica: uma perspectiva crítica em psicologia . 2 ed., rev. São Paulo: Cortez, 2002. 224 p.

BOCK, Silvio Duarte. Orientação profissional: a abordagem sócio-histórica. São Paulo: Cortez, 2002.

BOHOSLAVKSY, Rodolfo. Orientação vocacional: a estratégia clínica. 11 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. 210 p.

CALLIGARIS, Contardo. A adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000. 81 p.; (Folha explica).

ERIKSON, Erik H. Identidade juventude e crise. 2 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1987. 322p

OZZELA, Sérgio. Adolescência: uma perspectiva crítica. Em: Adolescência e psicologia – Concepções, práticas e reflexões críticas. Coordenação Maria de Lourdes Jeffery Contini; organização Sílvia Helena Koller. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Psicologia, 2002. 144p

Pedagoga. Discente do curso de Psicologia da Universidade Católica de Santos.
Discente do curso de Psicologia da Universidade Católica de Santos. Bolsista de Iniciação Científica do CNPq.

Fonte:
http://artigos.psicologado.com/psicologia-geral/desenvolvimento-humano/o-jovem-adolescente-e-a-escolha-profissional

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Psicologia não é auto-ajuda!



Autoajuda

Há coisas na vida que têm pouquíssima utilidade, ou, nenhuma. E há coisas na vida, que de tão inúteis, atrapalham a vida das pessoas. Mas, ok, tem gente que gosta de se enganar. Não faço alusão aqui às coisas fúteis da vida, nem aos objetos materiais, porque essas coisas podem ser de imensa utilidade. Aliás, as melhores coisas da vida são desnecessárias. Até o amor desnecessário é melhor. (Bem mais gostoso amar alguém de quem você pode prescindir, do que amar alguém de quem você precisa para respirar, não é?) Mas eu refiro-me às autoajudas. Tais como os textinhos da Ana Maria Braga, aos finais dos programas, as historinhas de rádio dizendo da beleza da vida, aos e-mails com historinhas em Power Point, aos livros de autoajuda. Mas, principalmente, me refiro às pessoas que são autoajudas ambulantes. Ou, acreditam ser. Gente que carrega um manual de conselhos no bolso, e adora recitá-los, tais como se fossem poesias. Conselhos, em geral, são bestas.


Por conselho besta eu entendo que é aquilo que todo mundo sabe o que é que deve ser feito, intelectualmente. Mas se não faz, é porque saber disso não é o suficiente. É. Saber nem sempre é o suficiente. As pessoas dizem aquele blábláblá de razão X emoção, cérebro X coração. Não sei se é audácia minha dizer que isso é balela, ou se é porque tenho algum juízo, mas parece-me que o conflito não se trata de uma briga justa entre dois órgãos do corpo. Mas se trata de quando o saber se torna insuficiente. De quando o intelecto não explica. Trata-se da falta de sentido. Trata-se do excesso de sentir. E ignorar isso é o que torna os conselhos tão medíocres.


Quem pede conselho, geralmente já decidiu o que fazer, mas acha que deveria fazer a coisa que não foi escolhida. Aí, pede uma dose de autoajuda – a uma pessoa, a um livro - na tentativa de que alguém lhe convença do contrário. E se alguém tira o manual de conselhos do bolso e convence o fulano a fazer o que ele acha que deveria fazer, mas não gostaria... Vai dar encrenca. Pode apostar. E a responsabilidade é do dono do manual. Porque autoajuda é dizer para alguém tudo o que a pessoa já sabe, num tom de quem sabe mais.


Enquanto o saber está no campo intelectual, muito bem embasado, sustentado e explicado, o desejar está em cada célula do corpo, em cada pedaço de alma, não explicado, não comprovado. E a gente tende a se angustiar diante do não-sentido. Ainda que ele esteja inundado de sentires...


Sugiro, então, que substituam-se as doses de autoajudas com pedras de conselhos, por porções de escolhas temperadas com responsabilidades. É bem verdade que escolher é uma coisa dificílima. Porque escolher é responsabilizar a si por seu próprio desejo. E desejo é coisa perigosa de se enxergar. Porque diante de um desejo reconhecido, não se pode recuar.

Ana Suy Sesarino

http://significantess.blogspot.com/2011/04/autoajuda.html



E lembre-se: Psicologia não é auto-ajuda! Cuidado com fórmulas prontas. A Psicologia sempre vai levar em conta a individualidade, as singularidades, as possibilidades, potencialidades e limites de cada um.

"A condução do tratamento há de ser precisa: há que se ajustar a palavra à vida, conciliar a palavra com o corpo, fazer da palavra a própria pele até alcançar o almejado sentir-se “bem na própria pele”. Também será necessário suportar o inexorável sem se lastimar e abandonar a rigidez do queixume pela elegância da dança com o novo." Jorge Forbes


Basta de Queixas

Jorge Forbes

Texto publicado no livro "Você quer o que deseja?"

Todo mundo se queixa o tempo inteiro. Do tempo: um dia do calor, outro dia do frio. Do trabalho: porque é muito, ou porque é pouco. Do carinho: “que frieza”, ou “que melação”. Da prova: “dificílima”, ou “fácil demais”. E dos políticos, e da mulher, e do marido, e dos filhos, e dos tios, avós, primos; do pai e da mãe, enfim, de ter nascido. A queixa é solidária, serve como motivo de conversa, desde o espremido elevador até o vasto salão. A queixa é o motor de união dos grupos, é sopa de cultura social; quem tem uma queixa sempre encontra um parceiro. A queixa chega a ser a própria pessoa, seu carimbo, sua identidade: “Eu sou a minha queixa”, poderia ser dito.

A queixa deveria ser a justa expressão de uma dor ou de um mal-estar, mas raramente ocorre assim. É habitual que a expressão da queixa exagere em muito a dor, até o ponto em que esta, a dor, acaba se conformando ao exagero da queixa, aumentando o sofrimento. É comum as pessoas acreditarem tanto em suas lamúrias que acabam emprestando seu corpo, ficando doentes, para comprovar o que dizem.

A causa primordial de toda queixa é a preguiça de viver. Viver dá trabalho, uma vez que a cada minuto surge um fato novo, uma surpresa, um inesperado que exige correção de rota na vida. Se não for possível passar por cima ou desconhecer o empecilho, menosprezando o acontecimento que perturba a inércia de cada um, surge a queixa, a imediata vontade de culpar alguém que pode ir aumentando até o ponto em que a pessoa chega a se convencer paranoicamente que todos estão contra ela, que o mundo não a compreende e por isso ela é infeliz, pois nada que faz dá certo, enquanto outros, com menos qualidades, obtém sucesso. Ouvimos destes aquele lamento corriqueiro, auto-elogioso: “acho que sou bom ou boa demais para esse mundo, tenho que aprender a ser menos honesto e mais agressivo...” Conclusão: se não fossem os outros, ele, o queixante, seria maravilhoso. Por isso, toda queixa é narcísica.

Temos que acrescentar que a queixa não surge só de uma dor ou de um desassossego, mas também quando se consegue um tento, uma realização. Aí a queixa serve de proteção à inveja do outro – sempre os outros ! ... – e tal qual uma criança que esconde os ovos de páscoa até o outro ano, o queixante não declara sua felicidade para que ela não acabe na voracidade dos parceiros podendo ele curti-la em seu canto, escondido, até o ano que vem, quando o coelhinho passa de novo.

Em síntese, três pontos: a queixa é um fechamento sobre si mesmo, uma recusa da realidade e um desconhecimento da dor real. Não confundamos: é importante separar a queixa narcísica da reivindicação justa, mas isso é outro capítulo. Aliás, é comum o queixoso se valer da nobreza das justas reivindicações sociais para mascarar seu exagerado amor próprio.

Um momento fundamental em todo tratamento pela psicanálise é o dia em que o analisante descobre que não dá mais para se queixar. Não que as dificuldades tenham desaparecido por encanto, mas que o “tirem isso de mim”, base de toda queixa, perde seu vigor, revela-se para a pessoa todo o seu aspecto fantasioso. É duro não ter para quem se queixar, não ter nenhum bispo, um departamento de defesa dos vivos como tem o dos consumidores. A pessoa pode perder o rumo, não saber o que vai fazer, nem mesmo saber quem é.

Nesse ponto, a condução do tratamento há de ser precisa: há que se ajustar a palavra à vida, conciliar a palavra com o corpo, fazer da palavra a própria pele até alcançar o almejado sentir-se “bem na própria pele”. Também será necessário suportar o inexorável sem se lastimar e abandonar a rigidez do queixume pela elegância da dança com o novo.

Mais importante que uma política de acordos, que é feita a partir de concessões de posições individuais, é estar em acordo com o movimento das surpresas da vida, dos encontros bons ou maus. E tudo isto sem resignação, mas com o entusiasmo da aposta. Basta de queixas.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

"Ensinem os filhos a falhar"

Entrevista


"Ensinem os filhos a falhar"


Estudioso das relações familiares, o psicanalista belga Jean-Pierre Lebrun diz que aprender a lidar com o insucesso é fundamental para livrar-se de apuros na vida adulta.
Ronaldo Soares


"Uma família harmônica não necessariamente faz de um jovem uma pessoa capaz de suportar o sofrimento inerente à condição humana" Jean-Pierre Lebrun.

Nos últimos trinta anos, o modelo tradicional de família passou por alterações significativas, principalmente no mundo ocidental. A ideia dos pais como senhores do destino dos filhos vem desabando progressivamente, no ritmo das transformações sociais. As consequências disso não são necessariamente ruins, como explica o psicanalista belga Jean-Pierre Lebrun, uma das principais referências na Europa no estudo sobre mudanças nas relações entre pais e filhos: "O que vale é a capacidade dos pais de fazer os filhos crescer. Esse é o bom ambiente familiar, independentemente do desenho que a família tenha". Lebrun esteve no Rio de Janeiro, para participar do 3º Encontro Franco-Brasileiro de Psicanálise e Direito. A seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu a VEJA.


Por que os pais hoje têm tanta dificuldade de controlar seus filhos?

Isso é reflexo da perda de legitimidade. Até pouco tempo atrás, a sociedade era hierarquizada, de forma que havia sempre um único lugar de destaque. Ele podia ser ocupado por Deus, ou pelo papa, ou pelo pai, ou pelo chefe. Isso foi se desfazendo progressivamente, e o processo se acentuou nos últimos trinta anos. Hoje a organização social não está mais constituída como pirâmide, mas como rede. E na rede não existe mais esse lugar diferente, que era reconhecido espontaneamente como tal e que conferia autoridade aos pais. As dificuldades para impor limites se acentuaram, causando grande apreensão nas pessoas quanto ao futuro de seus filhos.



Existe uma fórmula para evitar que os filhos sigam por um caminho errado?



É preciso ensiná-los a falhar. Uma coisa certa na vida é que as crianças vão falhar, não há como ser diferente. Quando os pais, a família e a sociedade dizem o tempo todo que é preciso conseguir, conseguir, conseguir, massacram os filhos. É inescapável errar. Todo mundo, em algum momento, vai passar por isso. Aprender a lidar com o fracasso evita que ele se torne algo destrutivo. Às vezes é preciso lembrar coisas muito simples que as pessoas parecem ter esquecido completamente. Estamos como que dopados. Os pais sabem que as crianças não ficarão com eles a vida inteira, que não vão conseguir tudo o que sonharam, que vão estabelecer ligações sociais e afetivas que, por vezes, lhes farão mal, mas tentam agir como se não soubessem disso. Hoje os filhos se tornaram um indicador do sucesso dos pais. Isso é perigoso, porque cada um tem a sua vida. Não é justo que, além de carregarem o peso das próprias dificuldades, os filhos também tenham de suportar a angústia de falhar em relação à expectativa depositada neles. "Não contribui em nada achar que, pelo fato de o filho usar drogas, tudo está perdido. Além de conviver com seu drama, ele terá de carregar sobre os ombros o peso da angústia dos pais".



Falando concretamente, como é possível perceber essa diferença no comportamento das famílias hoje?

A mudança é visível. Na Europa, por exemplo, quando um professor dá nota baixa a um aluno, é certo que os pais vão aparecer na escola no dia seguinte para reclamar com ele. Há vinte, trinta anos, era o aluno que tinha de dar satisfações aos pais diante do professor. É uma completa inversão. Posso citar outro exemplo. Desde sempre, quando se levam os filhos pela primeira vez à escola, eles choram. Hoje em dia, normalmente são os pais que choram. A cena é comum. É como se esses pais tivessem continuado crianças. Isso acontece porque eles não são capazes de se apresentar como a geração acima da dos filhos. É uma consequência desse novo arranjo social, em que os papéis estão organizados de forma mais horizontal.



Como o senhor avalia essa mudança? Esse novo arranjo é pior do que o anterior?
Hoje os pais precisam discutir tudo, negociar o que antes eram ordens definitivas. E isso não é necessariamente algo negativo, desde que fique claro que, depois de negociar, discutir, trocar ideias, quem decide são os pais.



Essas mudanças na estrutura social podem influenciar em aspectos negativos como, por exemplo, o uso abusivo de drogas?

Não há uma relação automática. Os mecanismos pelos quais os indivíduos se tornam dependentes químicos são diversos e complexos. A psicanálise ajuda a identificar alguns deles. Vou dar um exemplo. Manter uma criança em satisfação permanente, com sua chupeta na boca o tempo todo, fazendo por ela tudo o que ela pede, a impede de ser confrontada com a perda da satisfação completa. E isso vai ser determinante em sua formação.



Mas o que essa perda tem a ver com o fato de as pessoas enveredarem por um caminho autodestrutivo?

É uma anomalia no processo de humanização. Não nascemos humanos, nós nos tornamos. Isso ocorre quando aprendemos aquilo em que somos singulares entre todos os animais que habitam o planeta. Somos os únicos capazes de falar. Não se trata apenas de aprender ortografia ou usar as palavras corretamente. Quando dominamos a faculdade da linguagem, adquirimos uma série de características muito especiais, como, por exemplo, a consciência de que somos mortais. Aprendemos a construir as pontes que levam a um entendimento superior do mundo e de nossa condição. Isso é o que nos diferencia e nos torna completamente humanos. Um desequilíbrio nesse processo pode ter consequências. É aí que entra a explicação psicanalítica para o ingresso no universo das drogas. Aprender a falar, ou tornar-se humano, é algo que não ocorre espontaneamente. É uma reação a uma perda do estado permanente de satisfação completa com a qual somos confrontados na primeira infância. Ou seja, o processo de humanização começa pelo entendimento de que jamais haverá a satisfação completa. É esse o curso saudável das coisas. Se os pais boicotam esse processo, podem estar cometendo um erro.



Com que consequências?

Isso faz com que estejamos cada vez menos preparados para lidar com o sofrimento da nossa condição humana. Há séculos que as drogas têm algo de paraíso artificial, como diz Baudelaire. Ou seja, uma forma de se refugiar da dor humana, da insatisfação. As drogas sempre serviram para evitar o confronto com esse sofrimento. Quanto menos você está preparado a suportar as dificuldades, mais está inclinado a se evadir, a recorrer a substâncias, sejam as drogas ilícitas, sejam as medicamentosas, para limitar o sofrimento que vai se apresentar. Com o desenvolvimento da farmacologia, essas substâncias se tornaram muito acessíveis. Isso pode criar distorções. É muito mais simples tomar uma Ritalina para não ser hiperativo do que fazer todo o trabalho de aprender a suportar a condição humana. Quando criança, a pessoa já precisa ser confrontada com a condição humana da perda de satisfação. Dessa maneira, na idade adulta, sua relação com o fim de uma paixão amorosa, por exemplo, tem maiores chances de ocorrer de maneira mais aceitável e menos traumática.

Por que as drogas têm apelo especial para os jovens?

Eles são mais sensíveis a esse fenômeno porque têm uma tendência espontânea a, quando se tornam adultos, ser novamente confrontados com as dificuldades da existência. É, de certa forma, a repetição daquilo que haviam vivenciado na infância, quando foram, ou deveriam ter sido, apresentados à ideia de perda da satisfação completa, de que não ficariam com a chupeta na boca a vida inteira, por exemplo. Se, no ambiente em que esses jovens vivem, há uma abundância de produtos que funcionam como um meio de evitar essas dificuldades, eles mergulham de cabeça. Como também veem nisso certo caráter transgressivo, todas as condições estão dadas para que eles recorram às drogas.



Que conselhos o senhor daria a pais que têm filhos viciados?

É preciso não achar que, pelo fato de os filhos usarem drogas, tudo está perdido. Isso não contribui em nada. Caso contrário, o jovem drogado, além de conviver com o próprio drama, terá de carregar a angústia dos pais sobre os ombros. Esse é o momento em que os pais devem aceitar que algo não funcionou direito em vez de tratar o problema como se tudo estivesse perdido. Nem sempre está.



Há alguma terapia que funcione contra a dependência química?

Cada caso requer um trabalho. Não existe terapia milagrosa. Há tentativas interessantes, de pessoas que se ocupam de refazer com o sujeito o trabalho de suportar as frustrações, as impossibilidades, os limites. Esse trabalho pode ajudar as pessoas a se livrar da dependência. Não existe até hoje uma droga que chegue a resolver o problema da droga. Momentaneamente, a pessoa pode até ficar contente se conseguir se tornar um pouco menos ansiosa, mas é preciso ver que efeito isso tem a longo prazo.



Existem dependentes irrecuperáveis?

A psiquiatria não é uma ciência universal, ela não diz o que vale para todos, ou mesmo para uma série de pacientes. É preciso trabalhar sempre caso a caso. Mas eu não diria nunca que um viciado em drogas é irrecuperável. Existem outros elementos em jogo que precisam ser considerados. Não há dependência química que não seja fruto de uma interação malsucedida entre o contexto social em que o indivíduo está inserido e o seu trajeto singular desde a infância.



Pouco mais de um mês atrás, no Rio de Janeiro, um rapaz viciado em crack matou uma amiga que tentava ajudá-lo. O pai do rapaz atribuiu a tragédia à dificuldade de internar o filho. O senhor é favorável à internação de dependentes químicos?

Essa é uma questão complicada mesmo. Na Europa, de modo geral, optamos cada vez menos pela internação de dependentes químicos. Quando a internação é necessária, esperamos que ela se dê de forma voluntária. Nos casos em que isso não é possível, a internação dura em média quarenta dias e é acompanhada de medidas administrativas para evitar abusos que já aconteceram, de internações excessivamente longas. Nesse aspecto, minha posição é como a dos europeus de maneira geral. Ficamos um pouco divididos entre manter nosso princípio democrático de que, mesmo doente, cada um tem o direito de dar sua opinião e, por outro lado, ter de reconhecer que em determinadas situações isso não é possível.
Costuma-se atribuir o mau comportamento dos filhos à falta da estrutura familiar tradicional, como a que ocorre após uma separação. Qual a exata influência que isso pode ter? Uma família organizada de forma aparentemente harmônica não necessariamente faz de um jovem uma pessoa capaz de conviver e suportar o sofrimento inerente à condição humana. Essa capacidade pode ser pequena em famílias aparentemente realizadas, com estrutura sólida. Assim como pode ser enorme em uma família conflituosa, dividida, conturbada. Por isso, não se deve levar em conta apenas o aspecto exterior da família. O que vale é a capacidade dos pais de fazer os filhos crescer. De incutir-lhes a verdadeira condição humana. Esse é o bom ambiente familiar, independentemente do desenho que a família tenha.



O melhor mesmo, então, é aceitar que a existência é sofrida?

O processo é mesmo muito mais complexo do que ocorre com outros animais. Um cão nasce cão e será assim para o resto da vida. Um tigre será sempre tigre. Um humano, no entanto, precisa se tornar plenamente humano. É uma enorme diferença. Esse processo leva uns vinte, 25 anos e está sujeito a percalços. Na Renascença já se falava disso: não somos humanos, nós nos tornamos humanos.

Revista Veja

http://veja.abril.com.br/091209/ensinem-filhos-falhar-p-021.shtml